
Ser ou ter: Eis a questão!
Entrevista cedida ao Jornal Folha e Trem 1) Você acredita que atualmente vivemos numa sociedade onde o ter é mais valorizado que o ser? Vivemos numa sociedade globalizada, onde o c
Entrevista cedida ao Jornal Folha e Trem
1) Você acredita que atualmente vivemos numa sociedade onde o ter é mais valorizado que o ser?
Vivemos numa sociedade globalizada, onde o capitalismo alcançou seu auge. O consumo é altamente estimulado, tanto pelas massas e pelo governo, que busca estimular o crescimento econômico. As mídias nos mostram o que usar a todo momento, e com isso podemos ser e estar numa posição social melhor e parecer mais com àqueles que alcançaram o aparente sucesso.
2) Como somos responsáveis por isso? Como construímos essa realidade atual?
Através das mídias o consumismo influencia cada vez mais a aquisição de coisas que muitas vezes não precisamos e promete o que não pode cumprir, que é a satisfação pela aquisição de bens materiais, onde começamos a pensar que “somos aquilo que temos”. Buscamos nos identificar com certas imagens e símbolos.
Podemos dizer que o ser humano é um eterno insatisfeito, sempre em busca de mais conforto, bem-estar e principalmente status. Este incessante consumo é motivado pelo desejo de reconhecimento social, onde atualmente o sucesso vem sendo medido pela demonstração da riqueza.
O “ser” vem sendo substituído pelo “ter” a além disso estamos caminhando para uma sociedade do “parecer”. As próprias redes sociais estimulam a imagem do ter. Nas redes sociais todos estão felizes, viajando, saindo para jantar, fotos produzidas com rosto, corpo perfeitos e roupas de marcas, etc….
3) Isso seria uma fuga para as pessoas fugirem de conflitos internos ou insatisfações pessoais?
Sim. Pode ser uma fuga da realidade em que a pessoa vive, pela não aceitação da mesma, querendo ser feliz com a aquisição de bens materiais. Em situações críticas de consumo exagerado, dividas e problemas financeiros podem aparecer.
A compra de um bem pode trazer a sensação de prazer imediato, porém esta satisfação é volátil. A medida que o objeto deixa de ser novidade, retorna à sensação de vazio. Mas o que queremos preencher? Muitas vezes não buscamos um produto, mas sim a solução de um problema pessoal. Exemplos como: baixa autoestima, autoconfiança, autoafirmação, solidão, conflitos nos relacionamentos, entre outros. Popularmente se diz que as mulheres curam de uma tristeza fazendo compras. Na maioria das vezes estamos insatisfeitos com nós mesmos e tentamos buscar a felicidade nesta aquisição de bens, o que não pode ser comprado transcende o caráter de consumo.
Não estou afirmando que ter a satisfação em comprar aquele carro desejado, fazer aquela viagem tão esperada ou ter a casa dos sonhos não seja importante. Merecemos ter conforto e realizar nossos desejos de obter bens materiais. Mas, como somos seres completos, é preciso saber ¨nutrir, promover e prover todos os aspectos de nossa vida: social, familiar, profissional, afetivo, aquisição de bens, etc. Se o consumo está exagerado, é sinal claro que minha insatisfação pertence a outro lugar.
Por exemplo: suprimos uma necessidade imediata e logo outra necessidade surgirá e outros produtos aparecerão no mercado, no estimulo de uma nova compra, na esperança de uma nova satisfação, tornando-se então uma verdadeira roda gigante.
Cabe a nós começarmos a fazer uma análise pessoal, e verificar o que realmente queremos satisfazer, qual o vazio que buscamos preencher. O mais importante é termos a tomada de consciência e pensarmos no porque estamos querendo mais parecer do que ser.
4) Existe alguma forma de revertermos esse problema? O que pode ser feito para mudar o “somos o que temos”? Como fazer outros entenderem que você não pode ser representado pelas coisas que tem?
Atualmente nossa sociedade confunde felicidade com sucesso, o que mostra que sermos “bem-sucedido” está na capacidade do poder aquisitivo que possuímos. Porém acredito que aos poucos podemos reverter este quadro, à medida que melhorarmos a educação na construção de uma nova consciência sendo feita através da educação de consumo e educação ambiental. Na educação em casa, os pais são responsáveis pela construção de princípios e valores que são transmitidos aos filhos.
Pense numa situação: Quantas vezes não julgamos uma pessoa pela aparência e depois de conhecê-la nos surpreendemos? Podemos surpreender e sermos surpreendidos a qualquer momento se nos permitirmos conhecer novas ideias, pessoas, se apropriar de novos conceitos e colocar em prática aquilo que realmente tem valor. Ser mais profundo nas relações humanas, buscando princípios e valores nos outros ao invés de falar de “sucessos “e/ou “conquistas” materiais.
5) Parece que esse consumo exagerado está para provar alguma coisa. Porque isso acontece? O que e para quem precisamos provar?
Volto a falar que muitas vezes existe uma necessidade de autoafirmação, autoconfiança ou mesmo autoestima. Preenchendo nichos, com bens materiais, que estão vazios.
Uma outra questão também é o consumismo imediato e descartável que se implantou nas últimas décadas…. Na geração dos nossos avós, quando se comprava uma TV por exemplo, era para a vida toda, mesmo porque ter um bem material era muito custoso e sofrido. Hoje compramos a TV de última geração, só que no ano seguinte sai um modelo mais atual e simplesmente descartamos a anterior. As crianças são estimuladas a fazerem o mesmo: pedem um brinquedo, se deliciam com o mesmo quando ganham, mas por pouco tempo, e então já querem outro. E os pais reforçam esse comportamento sempre comprando tudo que seu filho pede. Isso só reforça essa geração do descartável, do não dar valor e apreciar o que já se tem.
E estendendo a minha experiência clínica, infelizmente os relacionamentos estão cada vez mais seguindo esse mesmo caminho: a partir do momento que o outro (parceiro, namorado, marido, etc.…) não me atender mais no que preciso, eu simplesmente descarto e parto para a próxima tentativa. Sem pensar que relacionamento é uma construção e investimentos contínuos, onde nem eu nem o outro conseguimos sempre preencher todas as necessidades, pois somos seres diferentes em história, valores, motivações, etc.…e é aí que está a riqueza do relacionamento: conviver, aprender e crescer com as diferenças.
Concluindo, infelizmente estamos bombardeando nossas vidas com uma perspectiva do descartável e do imediatismo.
Gosto muito de uma frase de Carl Jung que diz: “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda “. É importante realizarmos este exercício de olhar para dentro, perceber o que de fato nos falta, o que está nos angustiando e gerando sofrimento. A partir daí, buscar e viver nossas próprias conquistas. Sempre respeitando nossa individualidade, limitações, qualidades, princípios e valores.
Cada ser humano é único e intransferível, com seus próprios anseios.
Ana Paula Esquina Lessa CRP 10/03168
Psicóloga Clínica na Abordagem Cognitivo Comportamental – TCC
*O material deste site é informativo, não substitui a terapia ou psicoterapia oferecida por um psicólogo
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Atendimento presencial no Ipiranga (São Paulo) e online por videochamada para todo o Brasil. Equipe registrada no CRP/SP.
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Publicado originalmente em blogspot da Equilybra .





