TRANSTORNOS MENTAIS: DEFINIÇÕES, SINTOMAS E TRATAMENTOS

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Entrevista realizada para o Jornal Folha e trem

1) O que são transtornos mentais?
Transtornos mentais e comportamentais são alterações do funcionamento da mente,como alterações de humor,do modo de pensar e de agir que resultam em certa deterioração ou perturbação nas várias esferas da vida desse indivíduo: familiar,social,pessoal, nos relacionamentos afetivos,no profissional, intolerância e dificuldades para lidar com frustrações,entre outros.

Os Transtornos Mentais e Comportamentais não constituem apenas variações dentro da escala do “normal”, sendo antes, fenômenos claramente anormais ou patológicos.
Para que seja feito um diagnóstico correto da presença de um transtorno mental são necessários avaliar pelo profissional adequado,ou seja,psiquiatra e psicólogo, três fatores importantes:

1º) É preciso que os sintomas tenham uma representação significativa,ou seja, que se apresentem vários tipos de comportamentos no mesmo quadro. Cada transtorno tem um ¨check list¨ de sintomas e comportamentos que caracterizam esse transtorno. Exemplificando: uma pessoa para ser diagnosticada com anorexia nervosa deverá preencher mais que um comportamento ou sinais clinicos presentes como : perda rápida e brusca de peso, uso de laxantes, diuréticos e outros artificios ou medicações que contribuam para perda de peso, distorção da autoimagem ( olhar-se no espelho e ver-se sempre gordo por mais que esteja magro), obsessão e preocupação excessiva com receitas, calorias,gorduras e açúcares dos alimentos, isolamento social, depressão, uso de roupas largas para disfaçar, tornar-se intolerante ao frio por conta de ausência de massa e gordura corporal,estar sempre com bala ou mascando chicletes para disfarçar o mal halito, entre outros.

2º) Constatar a presença contínua e repetitiva desses sintomas e não um conjunto de comportamentos reconhecidos como anormais presentes apenas em algum momento isolado da vida. Por exemplo, quando uma pessoa sofre uma perda de um ente querido, poderá apresentar sintomas como falta de apetite, perda de peso considerável,estado afetivo depressivo(diferente de depressão), isolamento…Mas esses comportamentos estão diretamente ligados a um evento traumático ocorrido e com o tempo esses sintomas vão-se dissipando e o individuo vai retornando suas atividades e seguindo sua vida de forma normal e saudável. Caso esses sintomas persistirem, cristalizando-se e intensificando-se com o tempo, então podemos considerar tratar-se de um transtorno que teve sua eclosão com um fato traumático .

3º)Mas a manifestação do transtorno, seja qual for, na sua grande maioria,não tem nenhuma relação com fatos ou motivos que surgiram na vida da pessoa. E esse é um fator importante a ser considerado para o diagnóstico.

Não podemos generalizar, porém na maioria das vezes, o surgimento dos transtornos mentais ocorrem na pré ou na adolescência, onde o indivíduo tem modificações estruturais, fisiológicas e sociais drásticas: o aparecimento dos hormônios ligados ao crescimento e a sexualidade,mudanças físicas relacionadas a maturidade da sexualidade( surgimento dos pelos pubianos,seios…) e também as atividades sociais que agora estão mais voltadas a sociedade do que anteriormente na infância quando eram direcionadas ao ambiente familiar. Muitas vezes a falta de informação dos pais e familiares levam os mesmos a considerarem as atitudes ¨anormais¨como próprias da adolescência retardando assim o diagnóstico.

2) Quais são os transtornos mentais mais comuns nos brasileiros?
-T.A.G. : transtorno de ansiedade generalizada
-Depressão
-Transtorno Afetivo Bipolar
-Sindrome do Pânico
-Fobias
-Distúrbios alimentares: anorexia, bulimia, compulsão alimentar, obesidade mórbida.
-Dependência química: alcool, drogas ilícitas ou vício em medicamentos farmacológicos

2)Por que as pessoas banalizam tanto os transtornos mentais, principalmente, a depressão e a ansiedade, achando que é apenas uma “fase” ou “frescura” da pessoa que está passando pela situação?
Infelizmente o ser humano lida muito mal com o que não consegue entender ou dominar. Faz parte da nossa ¨humanindade¨ficarmos paralizados, impotentes diante de situações que não visualizamos soluções ou não compreendemos. E a falta da procura de um profissional da area para o diagnóstico correto levam a reações como a banalização ou generalização da doença.

Outro fator muito importante para a banalização principalmente da depressão e da ansiedade, é justamente pelo fato desses transtornos não estarem relacionados a nenhum evento que tenha ocorrido na vida da pessoa.Estar ansioso é diferente de ser ansioso; estar depressivo é diferente de ser depressivo e assim por diante. Estar significa que algo na vida do indivíduo aconteceu que provocou esse estado. O transtorno não tem essa ligação direta a fatos da vida. Sendo assim quando conseguimos justificar na realidade comportamentos considerados anormais, fica mais facil sua compreensão. Sem essa relação , as pessoas acabam considerando como frecura, vitimização, e ate fraqueza do indivíduo.
Isso piora consideravelmente o quadro. Frases comuns como : – Você não tem motivos para estar assim, ou , sua vida é otima, ou, levanta e para com essa frescura, ou , você esta querendo chamar a atenção fazendo isso…. são entendidas pelo ¨transtornado¨como desamor, falta de compreensão , e pior, a certeza de que se trata de uma fraqueza dele e não de uma impossibilidade real de sair dessa crise sozinho. E a consequencia mais grave que infelizmente acontece com frequencia é o suicidio.

Vale ressaltar aqui que transtorno mental é doença !!!Causam mais sofrimento e incapacidade que qualquer outro tipo de problema de saúde. Sem ajuda e tratamento profissional adequados, o individuo não consegue estabilizar, melhorar, ou superar seu transtorno. Não se trata de fraqueza ou falta de atitude do individuo.

3) A região metropolitana de São Paulo foi considerada o maior celeiro de transtornos mentais do mundo. Quais são os principais fatores que contribuem com esse índice tão elevado?
A correria das grandes metropolis levam as pessoas a não terem tempo para um ¨olhar¨mais criterioso sobre sintomas e comportamentos inadequados como sinais de que algo nao esta indo bem. As pessoas estão cheias de atividades e compromissos e vão levando com a ¨barriga¨ suas vidas ,sem o devido cuidado que deveriam ter com sua saude fisica e mental.
São Paulo é berço de situações estressantes como trabalho excessivo, crise profissional e econômica, e essa ¨gangorra¨ criada diante de um futuro incerto, promovem depressão e ansiedade. fatores também como falta de tempo para estar com familia e amigos, para atividades prazeirosas e de lazer, contribuem para esse índices elevados, visto que geralmente a pessoa não se reconhece com esses sintomas, quem percebe é algum parente ou amigo muito próximo.
Outro aspecto importante: infelizmente vivemos numa geração imediatista e descartavel, onde a prioridade é termos tudo a mão, sem investimento afetivo e de tempo, sem tolerância as frustrações e com uma apologia excessiva aos bens materiais e a busca frenética em corresponder aos padrões estéticos vigentes. Exemplo claro disso são as relações afetivas cada vez mais banalizadas e descartáveis, onde se o outro não me oferece o que preciso, eu descarto. Esses comportamentos infelizmente reforçam a falta de tolerância as frustrações, falta de adaptabilidade e criação de recursos internos para lidar com situações adversas que fazem parte da vida. Estamos criando uma geração de indivíduos com egos fragilizados, empobrecidos de recursos internos e portanto suscetíveis as doenças emocionais e psíquicas.

4) A tendência é que os transtornos aumentem conforme o tempo?
Sim! O diagnóstico feito tardiamente, a banalização dos relacionamentos, a falta de cuidados com a saúde mental/ psiquica, a intolerância as frustrações, contribuem significativamente para o aumento dos transtornos em geral.
Costumo falar aos meus pacientes que do mesmo jeito que tratamos de nossa saúde física indo a médicos, da saúde bucal indo ao dentista, as pessoas deveriam ter consciência que é preciso cuidar da saude mental e psíquica e que ao perceberem sinais de sentimentos e comportamentos inadequados, terem a humildade de buscarem ajuda o quanto antes.
Hoje é mais do que provado que doenças emocionais e psíquicas acabam favorecendo o surgimento de doenças físicas ou promovendo as crises de doenças físicas pré existentes. Por exemplo: ansiedade pode causar problemas cardíacos, gastrite, ou ate aumentar a pressão arterial ou indice glicêmico em pessoas com hipertensão ou diabéticas.

5) O que falar sobre a “romantização” dos transtornos mentais, isso realmente existe, por que existe?
Em contrapartida ao que já foi colocado acima sobre falta de informações e preconceitos quanto aos transtornos mentais, existe hoje uma banalização e generalização dessas doenças. Com o advento da internet, as pessoas conseguem ter informações imediatas sobre definições e sintomas de todas as doenças e acabam praticando o papel que deveria ser do profissional especialista: se autodiagnosticar ou diagnosticar um parente/amigo. Essa busca desenfrada de respostas aos comportamentos que não compreendidos na internet, leva a maioria das pessoas a ¨encaixar¨ esses comportamentos inadequados em uma doença ou diagnóstico, aplacando assim sua impotência diante da situação.É o que chamamos de glamourização ou romantização da doença. Esta justificado e resolvido: Sou assim porque tenho depressão,ou, ele é assim porque é bipolar,etc. Na esfera dos famosos isso é muito comum acontecer. A mídia da conta de espalhar a notícia do ¨diagnóstico¨ da celebridade.
Veja bem: nenhum ser humano consegue se manter perfeito e emocionalmente estável 24 horas por dia! Então, é muito comum termos traços de sintomas ou comportamentos inadequados presentes em maior ou menor grau que correspondam a varias doenças mentais. Hoje em dia todo mundo se entitula Bipolar, Depressivo ou Ansioso.
Realmente esses três transtornos mentais lideram a lista dos mais presentes em nosso século. Mas o diagnóstico vai além da leitura de teorias. E isso piora a possibilidade de um diagnóstico correto pelo profissional, porque muitas vezes o paciente chega ao consultório com o rótulo e a certeza de ter ¨aquela¨ doença e relata de forma distorcida situações, comportamentos, emoções que comprovem o que ele já sabe que tem, interferindo na avaliação correta do profissional.
Uma forma das pessoas que não são profissionais da saúde, perceberem seu autodiagnóstico errôneo é se atentarem que lendo mais que uma doença mental, com certeza absoluta elas irão se identificar como tendo alguns sintomas de cada uma dessas doenças.

6) Como evitar os transtornos mentais e como tratar de maneira correta?

Na realidade, os transtornos mentais não têm uma causa específica. Eles são formados por uma composição de fatores biológicos, psicológicos e socioculturais. Fatores biológicos como genética e alterações no funcionamento cerebral pré existentes, não são tratados, então falar de cura de alguns transtornos seria imprudente. Esses fatores biológicos estão presentes no indivíduo desde seu nascimento. Porém, podemos sim evitar que um transtorno se manifeste e se perpetue durante a vida do paciente.

O indice elevado dos transtornos, ocorre muitas vezes por conta do preconceito em relação a busca do psicólogo e do psiquiatra estarem relacionados a tratamentos para ¨loucos¨.

O mais importante: O quanto antes a familia percebend que algo esta errado com seu ente, procurar uma ajuda profissional para o diagnóstico e tratamento. Quanto mais cedo for diagnosticado, melhores serão as condições desse paciente em lidar com sua doença e evitar crises.

Diagnosticado o transtorno mental, seu tratamento é conjunto com psiquiatra e psicólogo. A intervenção medicamentosa prescrita adequadamente é na maioria das vezes necessária e imprescindível para o alívio dos sintomas e sofrimento, pois ajuda o indivíduo a reagir e resgatar suas atividades cotidianas de forma saudavel. A combinação com a psicoterapia é perfeita. Na psicoterapia busca-se as raízes dos sintomas, sua compreensão, entendimento, aceitação, bem como ajuda o indivíduo na superação e na obtenção de respostas mais saudáveis para as adversidades da vida.

O entendimento sobre a doença dos que convivem com o paciente , sua compreensão e a orientação familiar são condições determinantes para que o paciente tenha qualidade de vida.

Rita Pinella
Psicóloga Clínica CRP: 06/29395

*O material deste site é informativo, não substitui a terapia ou psicoterapia oferecida por um psicólogo.

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