COMO VIVI APÓS A MORTE DO MEU PAI

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Um dia, meu pai recebeu o diagnóstico de um câncer agressivo, na verdade, quem recebeu a notícia fui eu e minha irmã. Naquele momento, não sabíamos direito o que fazer com aquela notícia e procuramos o médico, que nos deu o pior prognóstico possível! Para resumir a história: meu pai sobreviveu 2 anos e meio tentando tratar o câncer, mas não conseguiu, falecendo com 47 anos de vida e deixando um buraco dentro de mim! E agora, José??? O que fazer aos 19 anos, depois de ter perdido seu porto-seguro?

Nesse momento, apesar da dor e da saudade, aquele Pai que me ensinou que o mais legal da vida era ter coragem de ir ao encontro do que você desejava estava mais vivo do que nunca dentro de mim e, foi isso que eu fiz!

Eu cresci com um pai que acreditava, apoiava e admirava cada ganho meu, então, aprendi que eu era capaz!

Cresci sabendo que eu fazia coisa legais e bonitas e, que eu era competente, mas quando errasse, deveria tentar inúmeras vezes até acertar, ou aceitar que certas coisas não eram para mim, como por exemplo, ser física ou química, mas que se me esforçasse, tiraria uma nota razoável nessas disciplinas! Ou seja, aprendi a persistir e a reconhecer meus limites!

Cresci vendo generosidade no meu pai, que sabia se doar quando alguém mais precisava e, aprendi que era bom saber se colocar no lugar do outro.

Meu pai me incentivou a acreditar em mim e acreditar que vale à pena acreditar no outro também, porém, que algumas pessoas simplesmente não se importarão com você.

Por tudo isso, ao longo do tempo, vivendo meu luto e fazendo psicoterapia, aprendi também que meu pai jamais morreria: ele estava mais vivo do que nunca dentro de mim.

Tudo porque ele foi um Pai mais que coadjuvante. O primeiro papel de um pai é exatamente esse: ser um coadjuvante naquela relação simbiótica de mãe-bebê, mas à medida que aquela criança cresce, o pai vai tornando também protagonista. Todo pai pode e deve ser protagonista na relação com o filho e deve saber conquistar essa posição no arranjo familiar. No início da vida de um filho o pai fica lá observando e aprendendo o que deve fazer com o filho. Sábio o pai que sabe construir uma relação direta e saudável com seu filho.

Ao longo do primeiro ano de vida, essa possibilidade vai se tornando real e o pai vai encontrando o seu jeito de se relacionar com aquele filho, que também é seu! Quando um homem se torna Pai, recebe a possibilidade de estabelecer com aquela criança uma história rica, pois é através dos pais que os filhos aprendem a enxergar o mundo além das mães. Agora, todos os pais marcam a vida de seus filhos, não só através de seu código genético, mas sim, através de sua presença, ou ausência; através da sua admiração ou rejeição pelas escolhas dos filhos; através do seu apoio ou crítica. Herdamos dos nossos pais não só a cor dos olhos, do cabelo, a altura. Também herdamos dele a forma como aprendemos a nos relacionar com o mundo, afinal depois das nossas mães, com quem temos a primeira e intensa troca, geralmente é com nossos pais que aprendemos a começar a nos relacionar. Quando adultos, é essa relação com nosso Pai que inicialmente irá determinar as teias com que tecemos nossas relações mundo à fora. Estamos vinculados de tal forma a essa relação com nosso pai, que mesmo quando já existe a distância física, nosso Pai Interior está lá, nos determinando, em muitos momentos. E dependendo de como foi essa relação, a reparação da mesma só será possível no consultório psicológico.

É na nossa relação com nosso Pai que aprendemos a ser aceitos ou culpados, admirados ou rejeitados, bem como, quais limites são adequados. Quando essa relação é saudável e clara, nossos caminhos são também mais fáceis na procura de reconhecimento, aceitação, limites; entretanto, quando essa relação é construída de maneira negativa ou ausente, demoraremos mais tempo para estabelecermos relações com bases fortes e respeitando limites e individualidades, sendo necessário a ajuda da psicoterapia para ressignificarmos nossas emoções, lembranças e desejos.

Alguns Pais conseguem construir uma relação de tanto afeto e admiração com seus filhos, assim como, respeito e limites que viverão eternamente dentro deles, mesmo depois de mortos. Afinal, que pai morre se conseguiu ser e estar tão vivo na vida de um filho?

 

Simone V. Valenci Prado – CRP: 06/45275

Psicóloga Clínica na Abordagem Existencialista-Fenomenológica

 

*O material deste site é informativo, não substitui a terapia ou psicoterapia oferecida por um psicólogo.

  


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